A TEORIA CRÍTICA FRANCESA NO ENTRELUGAR DOS TRÓPICOS
Em 1971, Silviano Santiago cunha uma expressão que representou uma precoce tomada de posição, uma apresentação (ou reapresentação) das armas na praça da cidade letrada no capitalismo tardio, carregando em si o ambíguo valor de um aleph: o entrelugar do discurso latino-americano. Há trinta anos, Santiago lança seu ponto de vista novo e simultaneamente démodé ao reciclar certo elemento híbrido em suas miúdas metamorfoses. Os alvos são as idéias de unidade e de pureza, as flechas reinventam, mescladas, modernistas ou tardo-modernistas, a tradição do mesmo e do outro, ou seja, para dizê-lo de maneira direta, tanto de Oswald e de Mário de Andrade, quanto de Jacques Derrida e de Roland Barthes, pela via de uma práxis antropófaga, deliberadamente transgressiva, na exata medida em que vêem o conhecimento enquanto produtividade, a escritura enquanto fluxo e não enquanto código, etcétera.
No último parágrafo de seu ensaio em tom de libelo – cuja expressão-chave é sugerida de modo recorrente mas aparece, de fato, apenas no título –, Santiago afirma ou, mais precisamente, entoa:
Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão, – ali, nesse lugar aparentemente vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual antropófago da literatura latino-americana. [p. 28]
Por esta razão – por estar, queira ou não, incluído (mesmo que exclusivamente) no interior desse discurso – a pesquisa em processo não deve se limitar a um intento de literatura comparada, procurando inscrever-se em outra ordem – a de uma literatura compartida talvez, conforme as exceções às regras que tipificam o entrelugar, ou ainda uma tentativa de abordar um tipo de literatura cuja escritura se caracteriza sobretudo por ser canibalizável: um relatório transcrito por Borges, cujo narrador (Monsieur Menard) reescrevesse, ou pudesse reescrever, o relatório de Mister David Brodie – para citar dois personagens arquetípicos. Como o seu outro francês, e ao mesmo tempo diferentemente dele, o intelectual “canibal” digere e rumina uma produção que, de um modo ou de outro, se quer escritural e dissidente, além de problematicamente vanguardista e revolucionária à francesa, já que com ele está, no todo e em parte, catastroficamente identificado – ao que se pode denominar os modos do entrelugar.
Nesse sentido, conviria buscar as ruínas da destruição de um conceito “idealista”, de transparência ambígua, o mito da linguagem vista enquanto presença – visão que, mais tarde, seria criticada por convencionalista ao extremo – “no sentido de que se opôs a qualquer concepção referencial da ficção literária”, conforme Compagnon, em trabalho recente, mas sem esquecer de que se tinha consciência disso, ao menos no caso de Barthes. Conviria ainda, de imediato, sugerir as ambições de ruptura e os limites da idéia de um intelectual dissidente, que perpassa o ideário telqueliano, e analisar de que forma essa noção se manifesta em Santiago, entre outras figuras à la Menard.
Pierre Menard resulta de um ser híbrido, mistura de Mallarmé e de Jorge Luis Borges, segundo o próprio Silviano Santiago no ensaio famoso:
Pierre Menard, romancista e poeta simbolista, mas também leitor infatigável, devorador de livros, será a metáfora ideal para bem precisar a situação e o papel do escritor latino-americano, vivendo entre a assimilação do modelo original, isto é, entre o amor e o respeito pelo já-escrito, e a necessidade de produzir um novo texto que afronte o primeiro e muitas vezes o negue. [p. 25]
Diante dessa espécie rara de canibal, se poderia perguntar: que espécie de antropófagos devoravam-se na Argentina, naquele tempo – não mais nem menos “out of joint” que outros – senão seus novos críticos, como aqueles reunidos em torno do projeto (ou dos projetos, para ser mais exato) da revista Los Libros? Destaco, nos limites deste trabalho, alguns dos mais visíveis: Beatriz Sarlo e Ricardo Piglia. Sua intersecção fundamental, assim como aquela de Santiago (e de Leyla Perrone-Moisés) no Brasil, se dá no período com os jovens militantes da chamada teoria crítica francesa, denominados, problematicamente, telquelianos – manifestantes da diferença no terreno da cultura e da política, isto é, do pensamento sessenta-e-oito em uma de suas vertentes mais atuantes e controvertidas, aquela dos dissidentes (nos termos, por exemplo, do tardio libelo de Julia Kristeva, de 1977). Para abordá-los, dividimos a tarefa em quatro vetores, a saber: teoria; texto; sujeito; e dissidência.
1. Teoria (para uma nova história e um novo homem)
“Se existe intenção da consumação do ato produtor de uma escrita que é uma arquiescritura, escreve-se a partir de um discurso material porque ele é, ou existe...” A cópia desta teoria desconstrutiva da escritura poderia ser levada ao infinito a partir de suas próprias hipóteses – a começar pela idéia de revolução permanente – uma vez que se trata de combater diferentes tipos de “pares imperiais”, seja no campo da cultura ou no campo da política, no campo da ciência ou no campo da filosofia: o império da fala sobre a escrita, de deus sobre o diabo, da idéia sobre a matéria, da alma sobre o corpo, da forma sobre o informe, do sujeito sobre o objeto, e assim ao infinito. As armas da teoria que tomam como base partem do pensamento de Marx e de Freud e promovem um encontro entre Dante, Nietzsche, Sade, Lautréamont, Mallarmé. Armas pesadas para lidar com uma equívoca produtividade sem dono. Sua teoria do texto define-se por esta fórmula. Mais precisamente, para o grupo Tel Quel, como se sabe, o texto não representa um significado que o excede, assim como não existe um sujeito transcendente que o imponha ou um autor que o traduza. Na base de seu pensamento “monumental” – englobando (como no subtítulo de sua revista) primeiro apenas “literatura” e “ciência”, depois, “literatura”, “filosofia”, “ciência”, “política” – aparece, claro, o pensamento de Marx, via Althusser, e o que se imaginava ser o espaço de liberação representado pela luta de classes, e o pensamento de Freud, via Lacan, e a linguagem do inconsciente em novo ataque à razão ocidental.
Urgia promover um descentramento radical da linearidade, subverter os protocolos de circulação cultural do sistema, conforme o jargão da época, em nome de uma textualidade que se situaria antes da oposição animal/homem, natureza/cultura, e seria encarada como o golpe de morte do etnocentrismo – uma vez que está em seu ponto zero, em um espaço material que é comum a todas escrituras em sua infinita diferença, ou seja, em um campo que anuncia a própria noção de entrelugar: a exemplo de Oswald de Andrade, Silviano Santiago também descobre a América em Paris, com a diferença de que a França já se mudara para a América do Norte.
Fosse onde fosse, a meta final é nada menos que uma nova história, um novo homem, cujo valor não seria medido por seu capital significativo, ao contrário: a utopia deste discurso político de vanguarda, “monumental” e múltiplo, se encontra em uma tríplice revolução, econômica, social e simbólica, na tentativa de resolver a dicotomia literatura/revolução, quando ainda eram levadas em conta estas binárias verdades. Mas, para investigar as obsessões teóricas telquelianas – e de seus avatares na América do Sul – parece necessário esboçar (transcrever? reescrever? plagiar?) a teoria de uma teoria que chegará a ser identificada com o demônio, quando ela pretendia ser simplesmente demoníaca, além de excessiva. O comando da teoria, na expressão de uma leitora norte-americana, começa por não se confundir com a abstração, nem se opor ao concreto, conforme se lê em entrevista de um teórico conhecido pelo refinamento e o caráter camaleônico, sempre parasítico de si mesmo – à maneira, talvez, de seus pares paulistas, cariocas ou portenhos. Entre o legível e o ilegível, entre a vanguarda e a instituição, Roland Barthes afirmaria que o comentário de Sarrasine de Balzac “foi tanto a análise de um texto como, segundo meu entender, uma teoria do texto, do texto clássico, do texto legível”. Ficavam aí bem explícitas as distâncias a serem tomadas, a direção e a marca da ideologia nas micro e macro-convulsões imaginadas.
2: Texto
Postulava-se o fim das fronteiras entre crítica e ficção: teoria e escritura eram completamente identificadas, em função da dimensão teórica da escritura (segundo sua nova acepção), por um lado, e da recusa de uma abordagem puramente instrumental de sua linguagem, por outro. Como é sabido, a noção de texto é capital – tanto quanto “anticapitalista” – nesse contexto, ao incluir em si não somente o ensaio e a crítica, mas “tudo o que até hoje era o discurso intelectual e inclusive científico” [p. 16].Em seu verbete sobre a teoria textual, Roland Barthes demonstraria em primeiro lugar o que não é um texto para a “nova crítica”, além de sua importância fundamental para o Ocidente – “a civilização do signo” – por significar estabilidade e permanência, e também a “legalidade da letra”, que forneceria ao autor o completo domínio sobre a unidade cerrada e definitiva da obra. Em algumas linhas do trabalho destinado a uma enciclopédia, Barthes resumiria o ideário de uma época, com duas referências teórico-filosóficas maiores, o materialismo dialético e a psicanálise. Este ideário tem uma particular receptividade na América Latina, através de alguns personagens em trânsito, os quais convergem em torno de um incerto maoísmo de bases nacionalistas, em torno de 1970, pouco antes, pouco depois: Héctor Schmucler estuda na França com Barthes, retorna em 1969, e funda Los Libros, onde em boa parte se formam Beatriz Sarlo e Ricardo Piglia, que logo assumirão a direção da revista. Leyla Perrone-Moisés e Silviano Santiago, nesse período, estão indo e/ou voltando das universidades francesas e norte-americanas, construindo sólidas carreiras acadêmicas e assumindo o ecletismo estético-político com mais facilidade. Todos vivem e contribuem com intensidade para o que se chamou de uma “mutação epistemológica” concreta, na busca (utópica?) deste objeto novo, o texto, que se caracterizava por colocar em questão a sua própria enunciação.
É importante lembrar que, neste texto dedicado a uma pedagogia do texto (nele ainda apareceria o nome de Mao), Barthes destaca amplamente o trabalho de Julia Kristeva – uma das “antenas” de Tel Quel, a mais atuante em escala mundial hoje –, que definiria os seus seis conceitos teóricos fundamentais (práticas significantes, produtividade, significação, pheno-texto, geno-texto e intertextualidade). Para Kristeva, a exilada búlgara, e para o grupo Tel Quel, era um momento de transição da dualidade (do signo) à produtividade (trans-signo), anunciada a partir do final do século XIX. No comentário ao “geno-texto” no verbete de Barthes, ressurge a idéia de transição: a passagem da estrutura à “estruturação”, à “estruturalidade da estrutura” (nos termos de Derrida), vai reaparecer com ênfase, já que o grupo se situava na neovanguarda, ou melhor, disputava de maneira voluntariosa o espaço à frente desse movimento, de maneira violenta e estridente, sobretudo na voz de seu editor-fundador – por sinal, a figura mais visível e cada vez menos atraente do grupo, considerando a opinião de alguns de seus principais leitores latino-americanos. Não era essa a aposta de Roland Barthes, na Universalis em 1973, ao fazer referência à melhor linhagem de escritores modernos: “de Lautréamont à Philippe Sollers”; ou em Sollers écrivain, de 1979.
3: Sujeito
Jorge Luis Borges e Stéphane Mallarmé são escritores atingidos na retina pela página de um livro que é também a página em branco. Borges possui a condição peculiar de ser o cego que melhor lê, e o qual, mais do que isso, apregoa a superioridade da leitura. O maior clichê mallarmaico repete e volta a repetir que o mundo acaba na página de um livro, o que não torna a sua figura menos ambígua no interior da célula político-cultural francesa que – autodenominada vanguarda revolucionária – dizia como as coisas devem ou têm de ser (o que supõe, no fundo, nada menos que subjetividades fortes). A relação entre estes dois nomes tem a ver com o status que a revista Tel Quel conferia a Mallarmé, e tem a ver com o status que a revista Los Libros conferia a Jorge Luis Borges – ambas figuras incluídas exclusivamente, espécies de homo sacer (conforme o ensaio homônimo de Agamben) nos respectivos grupos, ambos escritores mais ou menos reprimidos em seu interior. O escritor de Ficciones enquanto a sombra esquiva e onipresente sobre a cidadela cada vez mais profundamente ideologizada de Los Libros, em sua busca de produção textual aliada à confrontação ideológica, à moda de uma “nova” nova teoria crítica, marcada pela barbárie latino-americana. O “golpe de idéias” – no dizer de um poeta mexicano, Héctor Olea – consiste em ver o poeta de Un coup de dés enquanto problemático e cauteloso duplo do escriptor nos termos de Tel Quel, cujos colóquios se deram em nome do Marquês de Sade ou do Conde de Lautréamont – o que tem a ver certamente com sua dívida, e sua dissidência, com o surrealismo – mas nunca de Stéphane Mallarmé.
Esta hipótese, apresentada de maneira digressiva, permite ou exige uma nova digressão, na direção de uma teoria do sujeito telqueliano, que antes de mais nada é um sujeito lacaniano, que com “Função e campo da fala e da linguagem”, de 1958, provoca efeitos sabidamente avassaladores, da psicanálise à lingüística, à crítica e a literatura. A teoria do sujeito segundo Tel Quel postula portanto o seu oposto, coloca-se em confronto com a noção de sujeito nos moldes do pensamento ocidental: o sujeito como vazio, como variável, conforme as bases lançadas por Jacques Lacan, que, segundo John Irwin, leu de modo especial (isto é, via Edgar Allan Poe) a ficção de Jorge Luis Borges, que, por sua vez – e talvez malgré lui –, se encontra na base de toda a filosofia desconstrutiva. Como afirmara de modo didático Barthes, era necessário subverter e mesmo abolir a separação dos gêneros literários e devolver ao leitor o que a ele pertence: o sujeito aparece cindido na teoria do texto barthesiana, bem como na escritura-leitura borgeanas lida há trinta anos desde aquele epicentro intelectual.
O sujeito que desaparece sob o significante – o já velho autor mortificado de Barthes – ocuparia, por isso, um entrelugar nos significantes do Outro, no dizer de Lacan. Sem deixar de sublinhar que o sujeito em falta, o sujeito que “treme” – no dizer de César Aira no ensaio sobre a poeta Alejandra Pizarnik – é aquele do chamado Lacan “clássico”, em que o “eu” se constitui na linguagem. Como trata de entender, explícito, Aira:
Na verdade toda sua teoria se baseia, se é que entendi bem, em que a constituição do Sujeito se faz na língua, e não há um sujeito “verdadeiro” anterior ao simbólico, a não ser no campo do mito. Depois, Lacan fala da “coincidência impossível” do Eu com a palabra “eu”. O sujeito do enunciado é uma máscara, infinitamente variada, do sujeito da enunciação. Esse infinito tende de modo assintótico à coincidência de Eu e “eu”, sem chegar nunca a ela. Exemplifica tudo isto com um sonho de Freud, ou, melhor dito, com a frase com que Freud comenta a aparição de seu pai, morto anos antes, em um sonho: “Ele não sabia que estava morto”. Quem o sabia era o sonhador, o filho, que aparece como sujeito da frase no absurdo desta. Segundo Lacan, aqui o sujeito “treme”. Acho que esta pequena parábola demonstra que a saída do sujeito simbólico ou lingüístico não está atrás, em um suposto sujeito “real” refugiado na Vida ou na Natureza, mas adiante, nos cul de sac poéticos da língua.
Pode-se inferir daí, portanto, que os cul de sac poéticos da língua chamam-se, no contexto deste trabalho, Borges, Mallarmé, Sade, Lautréamont ou Joyce, isto é, dizendo-o de modo simplista e interessado, os escritores segundo os preceitos fundamentais do grupo Tel Quel, em seu determinante mas indeterminável entrelugar.
4: Dissidência
Ausente o autor, a tarefa de despersonalização necessita prosseguir em moto-perpétuo. O discurso intelectual setentista apela como nunca a uma língua do exílio, a uma dissidência vista desde uma ótica cultural. Procurando repensar o lugar do intelectual, Kristeva – a exemplo de Beatriz Sarlo e Ricardo Piglia, à sua maneira, em Los Libros – tardiamente propõe o perfil de “Um novo tipo de intelectual: o dissidente”, conforme o título do “manifesto” antes mencionado, o qual parece denunciar um certo desencanto, se não desespero, diante da própria “institucionalização” iminente. Seria necessário perguntar aos autodenominados dissidentes franceses, como o faz Marx-Scouras: – Mas dissidentes do quê?, já que ocupavam um locus de enunciação privilegiado. Resgata-se em todo caso aí, na tentativa de esclarecer a nova guinada, o maio de 68 que houve e não houve para Tel Quel, porque o grupo apoiava oficialmente então o Partido Comunista e, sendo assim, colocou-se a princípio contra o movimento dos estudantes.
“Um espectro ronda a Europa: o espectro dos dissidentes”, diria Kristeva decalcando o Manifesto comunista, com as características hipérboles dos manifestos. A escritora reafirmava a necessidade de pôr em jogo identidades e linguagens de indivíduos e grupos, na direção de uma análise dos conjuntos sociais como “impossíveis”, no rastro de Georges Bataille, e mesmo mais do que isto: “Afirmar-se como revelador do Impossível”. Ao mesmo tempo, destacava três tipos de intelectuais em seu raciocínio: o “rebelde”, o psicanalista (como ela) e o escritor, sem deixar de incluir a posição da mulher, com o cuidado de se colocar contra o feminismo enquanto religião. Entre os escritores, outra vez, a marca do poeta de Un coup de dés, na diáspora das línguas
que se escreve nesta literatura pluralizando o sentido e atravessando as fronteiras dos signos e das línguas nacionais, que ilustram os nomes de Kafka, de Joyce, de Beckett, e, a sua maneira francesa, mais restrita, mais perdida e menos arrebatadora, mas precursora de qualquer moda: Mallarmé.
O poeta integraria uma daquelas “grandes gerações de exilados irreligiosos”, a exemplo dos judeus, de Spinoza, das vítimas dos Goulags e de “mim mesma”, Julia Kristeva,
exilada do socialismo e de uma racionalidade marxista, mas considerando que o socialismo – longe de ser uma hipótese impossível para o Ocidente, como pensam os do Goulag – é ao contrário um acontecimento certo e portanto um interlocutor.
A saída do novo intelectual postulado por Kristeva residia, basicamente, naquilo que chama de “verdadeira dissidência” – simplesmente, e como sempre, o pensamento, posição analítica que seria afirmação de dissolução e, simultaneamente, travessia de diferenças. Tratava-se, ainda uma vez, da intolerável “Morte do Homem”, à qual o pensamento telqueliano sempre retornará, através dos vetores do “impossível” e do “inominável” para um sujeito em falta.
A política da dissidência em Tel Quel, no entanto, não representava novidade para o programa do grupo, já que coincidia com a definição de escritor e de escritura que defendia desde o início – a experiência dos limites, nos termos de Sollers, ou a experiência interior, no dizer de Bataille. Segundo Marx-Scouras, “em muitos sentidos, a dissidência meramente realçava a conjunção entre literatura e ética que Tel Quel sempre invocou”. Fica, portanto, entre muitas outras, esta questão: de que modo se exerce (se se exerce) a noção de dissidência entre os telquelianos latino-americanos, e em que medida estes coincidem com Tel Quel em relação à tese do predomínio da literatura como experiência-limite.
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